
O sonho idílico de todos pais é evitar que seu filho sofra o máximo possível. E se estiver dentro do alcance deles impedir que uma lágrima caia, eles vão usar todas as suas táticas. Contudo, o sofrimento momentâneo do filho pode ser seguido de alegrias futuras.
A opinião dos pais é algo muito importante, mas também é necessário ouvir o coração. A Cristine, esposa de um tenente, me contou como foi enfrentar essa dura batalha:
_“ A família do meu marido nunca aceitou nossa relação. A desculpa era por causa da consangüinidade, já que somos primos. Mas, acredito que seja pelo fato de ser diferente da realidade deles. Eu sempre trabalhei, meus pais não são militares e são separados também. Sou uma mulher independente, e sempre corri atrás das minhas coisas. Nunca estudei em colégio militar, e também nunca freqüentei bailes e eventos deste meio.
_"Quando começamos a namorar a mãe dele veio aqui no Rio, e fez a questão de dizer assim: - Vocês podem namorar, mas casar são outros quinhentos! Começou a dizer que meus filhos iam nascer retardados, que não era esse o futuro que queria para o seu filho. Bom, colocou várias dificuldades no nosso namoro. Depois dessa conversa franca, meu tio parou de falar comigo. Foram três anos de desprezo por parte deles. Voltamos a nos falar, como se nada tivesse acontecido, no dia 26 de junho de 2006.
Nos 15 anos da minha prima (irmã do meu marido), ela fez uma festa em Brasília, cidade onde moram, e não me convidou. Ele foi sozinho. Na festa minha sogra ficou jogando uma menina pra cima dele, como se ele não tivesse namorada. Eles faziam questão que ele vivesse a vida dele como se eu não existisse. Não podíamos nos falar pelo telefone da casa dos pais dele, ele tinha que me ligar do orelhão. Eu não podia mandar nenhuma correspondência pra casa dos pais dele. Tudo era motivo de discussão.
Minha família, não apóia o fato de largar tudo (emprego, faculdade) para seguir com meu marido. Mas, acho que isso quem decide somos nós. É chato quando ouvimos as pessoas dizerem que não valha a pena tanto sacrifício, que se fosse ela nunca iria largar tudo para viver com um homem.Mas acredito no amor, acredito na família e sei que sou capaz de concluir meus estudos, ter minha profissão independente do estado que esteja.”
Além da Cristine, a Talita, namorada de um tenente, me relatou como sua mãe demorou a aceitar seu namoro:
_“ No início minha mãe interferiu e muito. Eram proibições injustificadas, acusações, provocações...ela falava mal do meu namorado, alfinetava mesmo...e meu pai ficava quieto, coisa que me irritava muito. Minha irmã tentava amenizar, falava para eu não ligar, porque era do temperamento dela, mas eu não sou assim e por muito tempo fiquei brigada com ela por culpa de como ela tratava meu relacionamento, dizendo que eu era idiota, uma boba, que ele ia para longe ia me largar, que ele ficava longe, que não estava levando o namoro a sério, que só eu namorava, para deixar de eu correr atrás..enfim...um inferno astral.
Chegou ao ponto de numa semana Santa ela querer ir para Cabo Frio e eu não queria ir, ela fez minha mala, pôs no carro e praticamente me obrigou a ir, ela disse que se eu não fosse que eu podia esquecer da minha faculdade, que ela ia parar de pagar tudo e que se eu queria ser independente que eu fosse trabalhar para ter meu dinheiro.
Eu emburrei, fiquei com muita raiva, muita mesmo, meu pai tentou fazer eu esquecer e quando chegamos lá eu ligava todo dia, mais de uma vez ao dia para meu namorado. Ela, então, me proibiu de ligar para ele, disse que isso era bobeira minha e então eu passei a comprar cartão de telefone, ia na rua e ligava para ele, aproveitando a desculpa de sair com meu cachorro, ou com um menina que trabalha para minha mãe e que se tornou minha amiga.
Dois amigos meus estavam em Cabo Frio também, e uma amiga muito querida me convidou para ir passar o dia com ela numa casa de praia da mãe dela em Araruama, eu disse que não ia dar, pois já tinha programado outra coisa, mas minha mãe tinha deixado.
Bem, então, nesse mesmo dia, de noite, combinamos de nos encontrar para um show que ia ter na praia, eu, essa minha amiga e a menina que trabalha com meus pais. Então tocou meu celular, era ele dizendo que tinha convencido o amigo dele a ir para Cabo frio, que ele estava sem carro, mas ele tinha ido para Araruama, para a casa desse amigo dele.
Passamos uma noite maravilhosa.... No dia seguinte ele me ligou, dizendo que mais tarde ele e esse amigo estavam combinando de passar em Búzios, perguntou se eu não queria ir, mas para não desviar do caminho e pegar o engarrafamento de Cabo Frio, era para encontrar com ele na saída da cidade.
Eu falei com meu pai, ele disse que não ia dar para me levar naquela hora, mas minha mãe ouviu e disse que eu não ia, que eu não ia ficar correndo atrás, que se ele quisesse que viesse até Cabo Frio, eu disse que ele estava sem carro, que o carro era do amigo dele, e ela disse que não, que se ele gostasse de mim que convencesse o amigo dele, ai começou uma discussão feia, minha mãe pegou minha mala jogou todas as roupas no chão, e disse que eu não ia, que esse namoro não ia dar em nada, que se eu ficasse só dando atenção a ele só ia conseguir virar uma faxineira.
Que ele só me queria para diversão, e por ai foi...eu fiquei com raiva, falei coisas que estavam engasgadas a tempo, e ela então me deu um tapa, e a unha dela pegou no meu braço, ficou ardendo, mas minha raiva não deixava eu sentir nada. Liguei para ele chorando, e ouvindo ela dizer ao fundo que eu era uma idiota, e disse que não ia dar, ele ficou preocupado, desligou.
De noite eu sai com essa menina que trabalhava para minha mãe, e liguei para a minha amiga, peguei o telefone dela e liguei para ele explicando tudo, chorando, com medo dele encher o saco e desistir e terminar o namoro, ele falou que estava muito puto, mas que depois no RJ com calma a gente se falava....E o tempo que restou em cabo frio foi um inferno, passei a maioria das dias sem dirigir a palavra a minha mãe, nem chegar perto dele e ignorá-la por completo. Paguei por tudo que ele tinha comprado para mim e que eu tinha gostado, e segui assim, sem falar com ela. Voltamos de viagem e abri meu e-mail e lá estava um desabafo dele, dizendo que não entendia porque de tanta raiva por ele, porque ela fazia isso, mas que se ela tinha decidido assim que ele não ia desistir de mim, e que se fosse para eu me transformar numa faxineira que ele ia me levar para Jaguarão, porque lá se pagava bem, e que eu ia ser mais do que uma faxineira na casa dele E mandou também um poema chamado esposa de um soldado e no título do poema ele pôs: Esposa(namorada...por enquanto) de um soldado...
Chorei mais uma vez e decidi que dali para frente minha mãe nunca mais tripudiaria assim de mim, nunca mais....e fiz uma greve de palavras com ela aqui em casa, não falava, não ligava para ela, não dirigia nem um olhar para ela. Ela me ligava eu dizia que não podia falar...as desculpas eram várias, que eu estava em aula, que estava estudando, que estava comendo, que estava no banho...Ela ficou muito triste a chateada, e com o tempo isso acabou, mas até hoje ela sabe que se começar a falar mal dele eu aviso logo, que é para parar.
Depois disso, pequenas brigas aconteceram, a mais séria foi num carnaval em Rio das ostras em 2006, cheguei a pensar em ir embora naquele dia mesmo, mas meu pai me acalmou e eu passei 2 dias sem falar com ela, e vim embora na quarta feira de cinzas...Fora isso tudo coisas pequenas foram estragando meu relacionamento com minha mãe no inicio do namoro, e para falara verdade até hoje nunca contei a ela coisas que realmente acontecem entre meu namorado e eu como brigas, dúvidas, indecisões...E sempre que ela alfineta alguma coisa relacionada a ele eu me afasto para evitar brigas e ela sabe que foi longe demais. O relacionamento entre nós duas melhorou, mas sempre é ameaçado pela mania dela falar mal do meu namorado, quando eu brinco com alguma situação relacionada a ele.
Meu relacionamento ensina que o amor se constrói todo dia. Respeito, confiança, carinho, amizade, paciência são apenas alguns ingredientes para não apenas se ter um namorado, mas sim uma pessoa muito especial. O amor não cobra todo dia a mesma atenção, é preciso um amor para cada tipo de pessoa e para cada momento. Tem horas que é preciso alegria, horas que se precisa de lágrimas, horas que o silêncio é que deve se fazer presente. O amor sozinho não sobrevive, deve ser cultivado em cada momento, não se pode esquecer que ele existe e apenas tentar colher os frutos. A cada dia se põe um tijolinho para que se forme um sonho. O amor também não é utópico, é algo mais perto do que se imagina. É um momento especial, é um eu te amo fora de hora, é um beijo roubado, é um presente bobinho, é um sorriso, é uma gargalhada, é descobrir e redescobrir o outro a cada dia. Ensina que o amor pode sim vencer obstáculos, que supera distâncias, que é indestrutível quando é vindo dos dois lados. é um sentimento maior, que não vê hora, razão, ou qualquer outra coisa para se fazer presente, o amor apenas é. Não se explica algo tão incrível que podemos sentir, apenas devemos viver, e isso é o maior ensinamento que meu namoro pode ter trazido para mim....viva o amor, não se importe com problemas bobos, com tpm, com a chuva, se é hora ou não, com o perfume a maquiagem, a distância, se vão pensar que você é uma boba, que você se entrega demais...viva o amor, e só isso, pois só vivendo esse sentimento dessa forma é que se descobre a felicidade”.
Em seguida, o poema enviado por aquele que precisou lutar pela mulher que amava:
“A esposa de soldado
Será que você tem idéia
sobre a chama de luta e de epopéia
que mantemos acesa em nossos lares?
Será que vocês sabem com justeza as circunstâncias
em que vivem as esposas militares?
A nossa vida é um misto emocionante
de cigano, guerreiro, bandeirante
sempre longe dos entes mais queridos
companheiras das lutas dos maridos
a seguí-los por ásperos caminhos
achando rosas onde houver espinhos
A nossa vida é feita de saudades,
de reminiscências, de sustos e de esperas
pertencemos a todas as cidades,
conhecemos verões e primaveras
dos rincões desta terra, o mais distante
nesta vida de errante menestrel!
Nós vivemos em todos os quadrantes
sendo sempre as figuras mais vibrantes
onde houver a corneta de um quartel
Os nossos corações não têm raízes
e a nossa alma não possui fronteiras
trazemos no sotaque as mil matizes,
de toda a nossa terra brasileira
nos sentimos tranqüilas e felizes
apesar do destino vagabundo
de vivermos um pouco em cada estado
pois não há nada, nada neste mundo
melhor que ser esposa de um soldado.
(autora: Neide Cabral. Resende- Junho 1969)
_"Minha família é contra meu relacionamento pela nossa diferença de idade, eles por várias vezes já me questionaram sobre quanto tempo mais eu vou ficar namorando ele, quanto tempo mais vai demorar para que possamos nos casar e termos nossos filhos, meus pais me questionam muito minha idade e quanto tempo eu tenho para ficar investindo num relacionamento que pode não ser duradouro".
_"Tanto a minha família quanto a dele criticavam muito a nossa relação, nos éramos muito ligados, grudados mesmos, e acho que o pessoal tinha medo que o pior pudesse acontecer, tipo um crime passional (risos), sério, não estou brincando. Quando eu resolvi acompanhá-lo pra São Paulo, todas as minhas amigas, sem exceção, me disseram que eu era louca, pois quando ele se formasse iria me dar um pé na bunda, e eu estava jogando tudo na relação. Hoje mais não, todos me apóiam até porque depois que eu casei fiquei mais centrada, meu marido me ajuda muito nisso. Mas já fui muito criticada, morava com a minha avó, pois meus pais estavam morando em outro Estado e ela me dava tudo, usava perfumes importados, roupas e marcas, entre outras coisas e quando comecei a namorar com ele, minha avó com raiva, deixou de me dar dinheiro e comprar as coisas pra mim, e até um absorvente ela me negava dizendo que eu fosse pedir dinheiro pra ele, passei muita humilhação porque ela era cabeça dura e achava que estava fazendo isso pro meu bem. Terminei procurando um emprego, o que me atrapalhou nos estudos, mas não baixei a cabeça nem acabei o namoro."
_ "Meus pais não aprovam muito não. Meus pais gostam muito do meu namorado, mas acham que o namoro não vai dar certo por causa da distância. Têm medo de que eu faça o mesmo que a minha tia fez quando começou a namorar um militar: largou tudo, brigou com o mundo e hoje vive uma vida horrível. Acho que o problema deles é com a família dele e com o fato dele ser militar. Infelizmente a opinião dos outros interfere muito. Tento fazer o possível para não considerar essas críticas, essas opiniões, mas não consigo. Certa vez, quando conversava com a minha irmã, ela me falou o que pensava da personalidade dele. Não que ele seja uma pessoa ruim, pelo contrário, todos gostam muito dele, mas tenho sérios problemas com a família dele e a personalidade nele não me ajuda em nada. Fiquei pensando vários dias sobre tudo isso, mas acabei decidindo continuar.
_"Meu namorado vai para o Paraná e eu ficarei no Rio. Meu pai brinca que lá tem muita mulher bonita, minha mãe diz que ele tem que sair, conhecer novos lugares, ir pras festas, e tal. Acredito que este não é o tipo de apoio que se dê para o namorado de sua própria filha e, por isso, afirmo que não nos apóiam muito. Fico chateada principalmente porque sei que terei de agüentar a distância sozinha, que não poderei contar com ninguém daqui de casa, mas provarei pra eles que dará tudo certo e que seremos muito felizes no futuro."
Por outro lado, a maior parte das famílias dão apoio e nesse caso ele se torna vital. Um exemplo disso ocorreu na vida de algumas das minhas entrevistadas, eis o que elas nos contam:
_"Quando faltavam 15 dias para o meu esposo se apresentar na cidade em que ele ia servir.Muitas pessoas me chamaram de louca pelo fato de largar o quartel, faculdade, um outro emprego e família para acompanhá-lo.Até porque no inicio seria muito sacrificante só ele sustentando a casa, fim de toda minha independência financeira.Então decidi falar pra ele que deveríamos esperar mais um tempo até ele conseguir retornar para o Rio ou eu conseguir uma vaga no hospital militar da cidade, então disse que não ia conseguir dar baixa em tempo hábil de seguir com ele.Vi que ele realmente estava arrasado e minha mãe disse que queria conversar comigo.Neste momento minha mãe falou:- você não está pensando em desistir de tudo agora?!Todas as suas coisas já estão praticamente prontas, fora que ele ama você e sei que você também o ama.Não deixe para trás a felicidade por uma coisa que você pode ter novamente em outro lugar.Na vida sempre tem que se abrir mão de alguma coisa pra ter outra.No outro dia, fui ao quartel e pedi minha baixa e dei a notícia a ele que ficou super feliz."
_"Lembro-me de quando larguei tudo para ir para Guaratinguetá dar apoio ao meu marido, que na época era apenas noivo. Meu pai me deu muita força e minha mãe me ajudou a fazer minhas malas, mesmo estando um pouco contrariada. E os pais dele foram comprar comigo minha passagem de avião. Veja que sintonia!Entendo que os pais dele também são meus, foram ao nosso favor, o mundo conspirou ao nosso favor."